Garrafas em vez de tijolos

Mercado ganha dois projetos alternativos de casas com material sustentável

Publicada em 21/08/2010 às 22h07m

O Globo

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As garrafas acabam de ganhar nova utilidade: a de material de construção. Elas despertam a curiosidade em dois projetos de casas, em que substituem os tijolos. Nos dois casos, testados por universidades federais, são usadas garrafas do tipo PET, de dois litros, como mostra reportagem de Ystatille Freitas, publicada na edição de hoje do Globo.

Uma das propostas, a do eletricista Antônio Duarte, conta com a aprovação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e já foi usada na construção de cinco casas. A outra é da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ainda está no papel. Entre os benefícios do uso do material reciclável, estariam a redução do impacto ambiental e também de custos (em até 50%), além de melhor conforto térmico. Entre os problemas, o fato de ainda não haver garantia de durabilidade e resistência.

Com 2.700 garrafas, Duarte, eletricista potiguar, construiu as paredes de uma casa de 48 metros quadrados, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Cada uma tem 12cm de espessura e é feita dentro de moldes de aço galvanizado com cimento e cal. O custo de um imóvel deste tamanho é de cerca de R$ 10 mil, incluindo mão de obra, menos da metade de uma unidade feita de materiais convencionais, que sai a R$ 24 mil.

- Esse tipo de técnica permite a construção de casas de até dois pavimentos – diz Duarte.

O objetivo de Duarte é que a técnica seja adotada por empresas para a construção de moradias para a baixa renda. Mas o modelo de habitação, apesar de aprovado nos testes de desempenho e resistência da UFRN, está esbarrando nas regras da Caixa Econômica (CEF) e ainda não pode ser financiado. Segundo a gerente nacional de Meio Ambiente do banco, Mara Luisa Motta, os materiais inovadores podem ser usados desde que a construção atenda a requisitos da norma de desempenho:

- A maioria desses projetos não apresenta todos os testes necessários.

No caso do projeto desenvolvido pelo Laboratório de Sistemas Construtivos (Labisico), da UFSC, a proposta é construir um imóvel com painéis pré-fabricados de PET em apenas dois dias. A redução de custos do imóvel pode chegar a 31%. Uma casa de 48 metros quadrados, por exemplo, sai por R$ 24 mil. O valor sobe a R$ 38 mil, se usado material convencional – levando-se em consideração o custo da construção na região.

Segundo o coordenador do projeto, Fernando Barth, os ensaios mostram que a construção atende à NBR 15.220, de desempenho térmico dos materiais e traz resultados satisfatórios em resistência:

- As garrafas podem ser boas substitutas dos tijolos porque são mais leves. O ganho não está apenas na diferença de preço. Está também no processo construtivo e no benefício ao meio ambiente.

Modelo boliviano já está em quatro países

Na Bolívia, o projeto Casa de Botellas, criado pela professora Ingrid Vaca Diez, constrói casas artesanais coloridas e com desenhos diferentes, feitas com garrafas PET, para famílias de baixa renda. Até o momento, foram construídas seis casas em cidades da Bolívia, México, Uruguai e Argentina. E o Brasil não está fora dos planos de Ingrid. Até o ano que vem, ela pretende visitar o Rio e mostrar que é possível, com R$ 15 mil, erguer uma moradia de 50 metros quadrados, sem incluir mão de obra, com acabamento diferente.

A técnica desenvolvida por Ingrid, artesanal, consiste no uso de garrafas plásticas preenchidas com materiais descartáveis como papel, sacolas plásticas, pilhas, areia e terra para levantar as paredes – diferente da usada por Antônio Duarte, que prefere usá-las vazias para dar melhor conforto térmico aos ambientes. Para cada metro quadrado de construção são necessárias 81 garrafas de dois litros.

- Antes de erguer a primeira casa, fiz muitos testes de resistência, usando água, óleo automotivo, terra, areia fina. Fiz estudos de planta, construção e cursos para ajudar nesta tarefa. Essas casas têm bom desempenho térmico e são adaptadas a qualquer clima – garante a boliviana

CONTATOS DE ANTONIO DUARTE  EMAIL duarte5480@uol.com.br

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